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Educação dos sentidos

Por André Resende

Na última vez em que andei a mais de cento e sessenta quilômetros por hora, deixei alguém para trás. A situação não era estranha, nem nova para mim - talvez pelo fato de me sentir, ali, com a sensação de perda. Aí sim era uma inquietação que não acontecera antes, quando só tinha sentidos para o ponteiro de quilômetros, o ruído cínico do motor, o prumo das rodas, a coordenação motora, a estrada, segundos, minutos, para aqueles que ficam, o tempo.

Ali, não: quis voltar. Se o retorno não parecesse tão distante e perigoso, teria voltado. Vi na minha cabeça uma imagem imperfeita: só a maneira de olhar - maneira de não olhar -, qualquer fingimento desnecessário, ausência de lirismo, de amor, romantismo, sentimentos educados demais para um tempo de aproximações e intensidades. Como na letra de um velho fado: por ali estarem, naqueles braços, os laços que eu queria. Por pouco tempo. Pela convicção de que não poderia passar pelo mundo sem tê-los – mesmo que fossem breves.

Poucos imaginam qual é a educação que um homem se dá a cento e sessenta e tantos quilômetros por hora, olhos fixos no infinito de sua mente, como uma faísca na máquina, interrompendo a velocidade, por causa das bruscas lembranças, noite e dia, todo dia, sem parar, sem parar, sem parar. Obedecendo todos os sinais, menos um que não valeria desvendar, porque quase nada escrevemos para todos, tampouco com todas as palavras e conclusões que esperam de nós. Exceto às vezes.

André Resende é escritor. Mundo Enquadrado – o lugar dos símbolos nas coisas reais, ensaios (Altana, 2005), Amor Vário, romance (Altana, 2006), Quem disse sim, poesia (Cubzac, 2007).

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