29


Acontece
 
Indique para um Amigo

........

Cura através do magnetismo
A Estimulação Magnética Transcraniana Repetitiva (EMTr) está sendo usada para tratar a depressão.
Por Izabel Cabús

A mais nova técnica médica usada para o tratamento da depressão é a Estimulação Transcraniana Repetitiva (EMTr). Ela utiliza-se do magnetismo de um aparelho que emite campos magnéticos 40 mil vezes maiores do que o campo magnético da Terra, diretamente para o crânio do paciente. “Esse campo magnético está intimamente ligado ao movimento dos elétrons nos átomos. A carga proveniente desse movimento é o que produz o campo magnético, estimulando o paciente no tratamento e recuperação mais rápida e eficaz”, explica o neurologista Carlos Augusto Campos.

História

A origem da estimulação magnética é antiga, sendo remetida ao século XIX. Em 1896, o francês Jacques-Arsène D’Arsonval fazia testes sobre o efeito do magnetismo nas emoções. Na década de 40 do século XX, esses estímulos eram testados e pesquisados na fisiologia animal. Só nos anos 80 é que os aparelhos semelhantes aos atuais foram usados para diagnósticos neurológicos, vindo a ser utilizado somente na década de 90, para o tratamento de doenças psicossomáticas.

Método

A metodologia da EMTr é largamente usada e aprovada em países como Canadá, Austrália e Israel. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) regulou o uso do aparelho de EMTr em março de 2006.

O Hospital das Clinicas da Universidade de São Paulo (USP) vem utilizando o aparelho para tratamento de depressão desde novembro do ano passado, após dois anos e seis meses de pesquisa com o método.

O funcionamento do aparelho consiste na produção de pulsos que penetram cerca de 3 cm em uma pequena área do cérebro. As estimulações magnéticas são capazes de gerar mudanças nos neurônios, ativando-os ou inibindo-os, dependendo dos resultados que se pretende alcançar.

Algumas pesquisas mostraram que, além de tratar a depressão, a EMTr pode melhorar a criatividade ou resistência do paciente. As vantagens da EMTr é a quase inexistência de efeitos colaterais. O único sintoma relatado, por alguns dos pacientes, é uma leve dor de cabeça, que passa depois da sessão. Para grávidas e lactantes, o método seria útil pelas restrições de medicamentos receitados. A técnica é também usada para tratamento de doenças psicossomáticas.

Segundo um dos pioneiros da área, o psiquiatra americano e diretor do laboratório de estimulação cerebral da Universidade Médica da Carolina do Sul, Mark George, os estudos em pacientes com depressão – principalmente os que não reagem a outros tratamentos – são os mais significativos, tanto em números como em resultados.

No Brasil, estão avaliando os efeitos da EMTr na esquizofrenia, no transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e na epilepsia. A USP concluiu um estudo sobre a utilização da EMTr em um tipo de dor crônica e está pesquisando a eficácia do uso do método para o autismo, dislexia e transtorno de déficit de atenção.

O grupo da USP está acompanhando 20 pacientes de TOC resistentes a medicamentos. Uma parte está sendo submetida a sessões reais de estimulações magnéticas e outra a simulações. Porém, os dados ainda não são conclusivos, pois a coleta deve ser encerrada em meados de 2008.

Tratamento

Por ser uma metodologia nova, não há parâmetros que padronizem como o tratamento deve ser feito para cada caso, como duração da sessão, intensidade e intervalo entre os pulsos eletromagnéticos emitidos. Nor­mal­mente, nos casos de depressão, são realizadas aplicações diárias durante um mês. Pode haver melhoras anteriores a esse tempo.

Outros estudos

No laboratório de neurociências e comportamento do Instituto Central de Ciências da Universidade de Brasília (UnB), a técnica é aplicada principalmente para a depressão. O instituto, em um estudo, constatou que o uso do método em casos de epilepsia só funciona bem em um tipo específico, no qual o foco epiléptico fica na camada mais externa do cérebro, chamada córtex. Outra instituição que vem fazendo estudos sobre a EMTr é a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, principalmente para alucinações auditivas, comuns em pacientes com esquizofrenia.

Na Austrália, o Centre for The Mind, ligado à Universidade de Sidney e à Universidade Nacional da Austrália, onde o uso da EMTr é bastante avançado, vem desenvolvendo um estudo para usar o método em pessoas saudáveis. O objetivo é mostrar que as estimulações magnéticas são benéficas às capacidades cognitivas, como melhora temporária da criatividade pessoal.

No Hospital das Clínicas da USP, também foi realizada pesquisa sobre a melhora de um tipo de memória em estudantes saudáveis. Nos Estados Unidos, o Departamento de Defesa encomendou um estudo com dispositivo portátil estimulador que pudesse potencializar os reflexo dos soldados. Com o resultado, ficou comprovado que os soldados melhoraram suas atuações.

“Por ser um método novo, há muitas pesquisas e muitas possibilidades a serem realizadas e alcançadas. Mas, é preciso prudência. Até agora, a eficácia da EMTr, no Brasil, está sendo comprovada e utilizada nos tratamentos psicossomáticos depressivos”, previne o neurologista Carlos Augusto Campos.

 

Carlos Augusto Campos – neurologista
E-mail: ccampos@ig.com.br

Indique para um Amigo