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Intestino Irritável
A Síndrome do Intestino Irritável está associada ao mau funcionamento do intestino, má alimentação e estresse.
Por Renata Silveira

Dor, desconforto abdominal, diarréia ou constipação (prisão de ventre) persistentes, podem ser indícios da Síndrome do Intestino Irritável (SII). Considerada como um dos males da vida moderna, pode ser causada pelo mau funcionamento do intestino, má alimentação e estresse.

A SII afeta de 15% a 20% da população mundial. Ocorre em qualquer idade, sendo mais incidente entre os 30 e 50 anos. O gastroenterologista José Roberto de Almeida explica que, há alguns anos, a Síndrome do Intestino Irritável era conceituada como um processo, predominantemente, encontrado nas mulheres. Sabe-se hoje que a síndrome afeta ambos os sexos. “Muitos estudos demonstram que nas sociedades ocidentais há uma prevalência maior nas mulheres que nos homens (relação de 2:1). O contrário é observado em países como Índia e China, onde a prevalência é maior nos homens”. Essa diferença deve-se a maior procura das mulheres por assistência médica no mundo oriental. No Brasil, em consenso realizado no ano de 2000, houve uma maior incidência da SII no sexo feminino (58,6%) em relação ao masculino.

Classificação

Por se pensar que o processo sindrômico fosse causado, exclusivamente, por alterações no cólon (intestino grosso), até metade do século XX, uma vasta sinonímia era atribuída a essa síndrome: colite mucosa, colite seca, colite nervosa, diarréia nervosa, neurose cólica, gastroenteropatia funcional, colite espástica e colón irritável. “Com a evolução tecnológica no estudo das alterações motoras do tubo digestivo, observou-se que essas alterações não se limitavam apenas ao cólon, mas também aos segmentos próximos do tubo digestivo (intestino delgado). Desse modo, o termo Síndrome do Intestino Irritável foi sugerido em 1967, e veio se consolidando nos últimos anos, substituindo as denominações anteriores”, ressalta.
A medicina classifica a SII como uma síndrome funcional, em que o paciente dispõe de todos os meios de diagnóstico e não encontra nada para justificar os sintomas apresentados. Quando o intestino é examinado, não se encontra nenhuma alteração em sua estrutura. Não existem infecções ou úlceras, e não evolui para qualquer tipo de doença orgânica. Em algumas pessoas, a SII causa insegurança para sair de casa, mesmo em trajetos de curta distância. Muitos deixam de se divertir, viajar ou trabalhar. A síndrome representa uma das principais razões de falta ao trabalho. Nos Estados Unidos é a segunda causa mais freqüente, perdendo apenas para o resfriado.

Sintomas

“A SII caracteriza-se pela presença de dor e desconforto abdominal, contínuos ou recorrentes, geralmente localizados no abdômen inferior, ocorrendo pelo menos três dias por mês, nos últimos três meses. Pode apresentar as seguintes características: alívio do desconforto abdominal com evacuações, início do desconforto associado às mudanças na freqüência das evacuações, e começo da dor associado com alteração na forma e na aparência das fezes”.

Outros sintomas que podem surgir são: distensão abdominal, azia, eructação (arrotos), flatulência (gases), náusea, vômito, cefaléia (dor de cabeça) tensional, dor lombar, síndrome da fadiga crônica e transtornos psicológicos.

O paciente, por dias ou até meses, alterna períodos de constipação, com intervalos de função intestinal normal ou mesmo diarréia. As fezes costumam ter consistência dura, existindo a sensação de evacuação incompleta. É comum ocorrer alterações ao urinar. Esse sinal indica que a bexiga tornou-se hipersensível, como o intestino. Nas mulheres, o útero e as áreas adjacentes podem tornar-se igualmente sensíveis.

Alguns portadores da SII apresentam esôfago e estômago mais sensíveis. Durante as crises, o paciente se sente cansado, desmotivado, com dores de cabeça e nas costas.

Os sintomas da SII aparecem logo após as refeições. Alimentos ricos em gordura como bacon, maionese e frituras aumentam os movimentos do intestino (peristaltismo) assim como, feijão, repolho, brócolis, cebola, alho, bebidas alcoólicas e cigarro. Alimentos contendo açúcar, frutose e glicose, provocam aumento de gases e da sensação de mal estar. O leite é outro grande vilão no aumento dos gases. A cafeína também pode aumentar a mobilidade intestinal. Por esse motivo, portadores da síndrome devem evitar ou minimizar o uso de bebidas à base de cola, como café e refrigerantes.

Diagnóstico

A causa da Síndrome do Intestino Irritável não é bem conhecida e, portanto, não se sabe como, a partir de certo momento, uma pessoa passa a apresentar os sintomas.

A detecção da SII geralmente é feita quando o indivíduo procura ajuda médica, com medo de ter desenvolvido câncer, colite, úlceras ou contraído AIDS. A presença de um gastroenterologista é fundamental no esclarecimento das doenças gastrointestinais e na solicitação de exames laboratoriais específicos.

Infecções intestinais podem ser responsáveis pelo aparecimento da SII em algumas pessoas. A síndrome também pode estar relacionada a fenômenos psicológicos e alterações de comportamento, tais como: alto grau de ansiedade, variação de humor, perfil depressivo e distúrbios do sono.

Acredita-se que alterações nos movimentos que propagam o alimento desde a boca até o ânus (motilidade intestinal), e nos estímulos elétricos, responsáveis por esse movimento intestinal, estejam envolvidos. A participação de um componente hormonal é indicada pela piora dos sintomas em mulheres durante a menstruação.

Pessoas perfeccionistas e estressadas têm maior probabilidade de desenvolver a Síndrome do Intestino Irritável após uma infecção intestinal, de acordo com um estudo britânico. Pesquisadores da Universidade de Southampton estudaram 620 pacientes com gastroenterite, e avaliaram a relação dos níveis de estresse com a doença. Na Grã-Bretanha, um em cada dez pacientes apresenta sintomas da síndrome depois de infecções como a gastroenterite.

Ao todo, 49 pessoas apresentavam a SII nas duas entrevistas. As mulheres apresentaram o dobro da probabilidade de desenvolver a síndrome. As pessoas que sofrem da síndrome são as que relatam os maiores níveis de estresse e de sintomas psicossomáticos. Esses pacientes eram também os mais perfeccionistas.

Tratamento

“Como a sín­drome é um processo mul­tifatorial e va­riável, é importante uma avaliação completa do paciente em todos os seus aspectos de vida”, diz José Roberto de Almeida. Esse processo envolve intervenções comportamentais, tais como mudança no estilo de vida e na dieta, e terapias farmacológicas, que serão aplicadas de acordo com o sintoma ou manifestação apresentado pelo paciente.

Confirmado o diagnóstico, existem várias maneiras de controlar e conviver com o problema. O conhecimento de que a síndrome não acarreta ou progride para nenhuma doença mais grave, é um passo importante capaz de, por si só, tranqüilizar e fazer com que os sintomas sejam mais bem tolerados.

Reduzir o estresse é indispensável. Também se deve fazer algum tipo de esporte ou exercício físico que traga prazer. Em alguns casos, é imprescindível a ajuda de um psicoterapeuta, pois a doença pode ter fundo emocional.

O tratamento consiste na reeducação alimentar e aumento da ingestão de fibras, que regulam o intestino. As fibras estão presentes em frutas, legumes, verduras e também em medicamentos específicos. O ideal é que o portador da SII faça várias refeições ao dia, em pequenas quantidades, e de baixo teor calórico.

Alguns medicamentos podem diminuir os sintomas. O uso de suplementos ricos em fibras pode ser usado. Os mais prescritos são fibras hidrófilas, drogas que causam o relaxamento dos músculos do intestino, e preparações derivadas do óleo de hortelã-da-folha-miúda (Mentha crispa). Terapias cognitivas podem ser usadas como tratamento auxiliar

 

José Roberto de Almeida - Gastroenterologista
Telefone: (81) 3227.9592
E-mail: drjralmeid@uol.com.br

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