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O sarampo ainda é uma ameaça?
Casos recentes fazem surgir dúvidas sobre a possibilidade de um novo surto da doença, já erradicada no Brasil.
Por Renata Silveira

O sarampo é uma doença infecciosa imunoprevenível causada pelo morbili vírus. De transmissão respiratória, ocorre geralmente na infância, mas pode afetar adultos susceptíveis (não imunes), que nunca tiveram a doença ou não foram adequadamente vacinados. Ainda é uma das causas mais freqüentes de óbito em crianças no mundo, particularmente em países onde a cobertura vacinal é insatisfatória.

Casos da doença no mundo

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que ocorram cerca de 30 milhões de casos de sarampo e 745 mil óbitos por causa da doença a cada ano. Em países da África subsaariana e do subcontinente indiano, nos quais ocorre a maioria dos casos, o sarampo ainda é a principal causa de morte por doença imunoprevenível. Nestas regiões, atinge freqüentemente crianças com menos de 9 meses, particularmente vulneráveis às formas mais graves de doença.

Em 2006, diversos surtos de sarampo foram registrados em países como Bielo-Rússia, Dinamarca, Alemanha, Grécia, Inglaterra, Itália, Polônia, Espanha, Suécia, Ucrânia e Venezuela. O elevado número de pessoas que se deslocam – por motivo de trabalho ou turismo - para áreas de risco de transmissão, faz com que exista risco permanente de reintrodução, em áreas onde a transmissão autóctone de sarampo (e outras infecções) foi interrompida, mas a cobertura vacinal não é adequada.

Interessados em saber qual a situação atual sobre o controle do sarampo, pesquisadores da Suíça compararam o número de casos estimados que ocorreram durante a segunda metade de 2005, com os de 1999, em todo o mundo. Esses dados foram obtidos através de informações da Organização Mundial de Saúde (OMS) e do Fundo das Nações Unidas para Infância (UNICEF). Os autores procuraram avaliar as estratégias criadas no combate ao sarampo, analisando as campanhas realizadas e comparando as taxas de mortalidade em países da África, do Mediterrâneo e da região do pacífico oeste. Verificou-se que, durante o período de 1999 a 2005, o número de casos mundiais de sarampo foi reduzido em 60%. O lugar em que se observou a maior redução foi na região do Oeste Pacífico (81%), seguido pela África (75%) e a região do leste do Mediterrâneo (62%). A África foi a que mais contribuiu na melhoria desses números, com 72% da redução global. Milhares de mortes, tanto de crianças quanto de adultos, foram prevenidas através de campanhas de vacinação e revacinação. Demonstra-se que medidas como essas são fundamentais e que parcerias internacionais, na produção de medicamentos e vacinas, tornam-se estratégias significativas na erradicação de diversas mazelas, que ainda são responsáveis por elevados números de óbitos mundialmente.

Casos da doença no Brasil

No Brasil, ocorriam epidemias de sarampo a cada 2 ou 4 anos nos grandes aglomerados urbanos. Foram registrados 775.973 casos entre 1980 e 1995. A partir de 1992, com a implementação do Plano Nacional de Eliminação do Sarampo, ocorreu uma importante redução do número de casos no país. Em 1997, entretanto, houve uma epidemia com mais de 50 mil casos, a maioria nos Estados do Rio de Janeiro e São Paulo. Desde então, a intensificação das ações de controle (vacinações de bloqueio, implantação da segunda dose da vacina e expansão da população alvo) ocasionou a queda do número de casos.

Entre 2001 e 2005, foram registrados nove casos de sarampo, todos relacionados a viajantes que adquiriram a infecção em outros países (Japão, Alemanha e Ilhas Maldivas). Porém, em novembro de 2006, foram confirmados 10 casos de sarampo no município de João Dourado (Bahia), próximo à região da Chapada Diamantina, após seis anos de interrupção da circulação do vírus autóctone no Brasil. Esses casos desencadearam uma reação nacional, mobilizando principalmente os estados fronteiriços com a Bahia, que receberam doses extras da vacina tríplice viral do Ministério da Saúde, promovendo uma campanha emergencial de imunização contra o sarampo. Esses casos levantaram uma questão que já não nos incomodava: será que o sarampo pode voltar a causar vítimas no Brasil?

Transmissão

O ser humano é o único hospedeiro natural do vírus do sarampo e a doença ocorre apenas uma vez na vida. Paulo Olzon Monteiro da Silva, infectologista e Chefe da Disciplina de Clínica Médica da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), explica que o sarampo é uma doença de transmissão respiratória. Assim sendo, como outras doenças com a mesma forma de transmissão, como a caxumba (papeira), a catapora, a rubéola e a gripe, é de fácil contágio, pois as gotículas de saliva, quando falamos, ou a secreção do aparelho respiratório, quando espirramos ou tossimos, transmitem facilmente a doença. “Em ambientes fechados, essa transmissão é facilitada pelo ar contaminado. Os ambientes abertos e ventilados dificultam a transmissão, por dispersarem os agentes transmissores. A transmissão inicia-se antes do aparecimento da doença e perdura até o 4º dia após o aparecimento de exantema cu­tâneo (manchas aver­­melhadas na pele). O tempo que leva entre a contaminação e o aparecimento dos sintomas (período de incubação) é em média duas semanas”, afirma o infectologista.

Após a transmissão, o vírus se replica na mucosa da nasofaringe e nos gânglios linfáticos regionais. Dois a três dias após, ocorre disseminação através da corrente sangüínea (viremia primária) para o sistema retículo-endotelial, onde o vírus se replica. Entre cinco e sete dias após a infecção, ocorre disseminação (viremia secundária) para o trato respiratório e outros órgãos.

Sintomas

O período entre a infecção e o início dos sintomas (incubação) é de cerca de 10 dias (8 a 14). As manifestações iniciais do sarampo (período prodrômico) são febre alta (39-40 °C), tosse “seca” persistente, coriza, conjuntivite e aumento dos gânglios linfáticos (linfonodos) do pescoço. No final do período prodrômico, que dura entre um a sete dias (comumente dois a quatro), surgem pequenos pontos branco-azulados (manchas de Köplik) na mucosa oral próxima aos molares, que são característicos do sarampo. Um a dois dias depois de surgirem as manchas de Köplik, aparecem manchas avermelhadas na pele (exantema máculo-papular eritematoso), inicialmente na linha de implantação dos cabelos e que progridem da face em direção aos pés (progressão céfalo-caudal). As manchas de Köplik desaparecem um a dois dias depois do início do exantema cutâneo, que geralmente tem cinco a seis dias de duração.

Em cerca de 30% das pessoas com sarampo podem ocorrer complicações, que são mais freqüentes em crianças com menos de cinco e adultos com mais de vinte anos. As mais comuns são diarréia, otite e pneumonia, causadas pelo próprio vírus do sarampo ou secundariamente, por bactérias. A encefalite (acometimento do sistema nervoso central) pode ocorrer na proporção de um para cada mil casos. O sarampo geralmente é mais grave em desnutridos, gestantes, recém-nascidos e pessoas portadoras de imunodeficiências. Em gestantes, pode causar abortos espontâneos e partos prematuros, porém não existe comprovação da associação entre infecção pelo sarampo e casos de malformações congênitas. O sarampo também pode agravar a tuberculose em pessoas que ainda não receberam tratamento para esta doença. A infecção pelo vírus do sarampo produz imunidade permanente, ou seja, ocorre apenas uma vez na vida.

Diagnóstico

O diagnóstico do sarampo é feito através de exames clínicos e, quando necessário, confirmado por exame de sangue.

Tratamento

“O tratamento do sarampo é sintomático, ou seja, me­dicação para fe­­­bre, conjuntivite, tosse seca e o uso de hidratação com soro e antibióticos, quando há complicações”, diz Olzon. O paciente deve repousar, ingerir bastante líquido, ali­mentos leves e limpar os olhos com água morna.

Prevenção

A vacina anti-sarampo, altamente eficaz, é aplicada em duas doses, sendo a primeira aos 9 meses e a segunda aos 15 meses. Mulheres grávidas ou que possam engravidar dentro de 90 dias não devem ser vacinadas. Pacientes com leucemia, linfomas, HIV/SIDA e outros problemas de imunidade devem ser avaliados individualmente. A vacina anti-sarampo é eficaz em cerca de 97% dos casos. Aqueles que já tiveram a doença ou foram vacinados têm imunidade permanente.

Paulo Olzin afirma que não há possibilidade de surgir um novo surto da doença em nosso País. “As vacinações repetidas produzem imunização. Dessa forma há grande número de pessoas imunizadas, o que impede o avanço da doença”.

Paulo Olzon Monteiro da Silva (Infectologista e Chefe da Disciplina de Clínica Médica da Unifesp)
Telefone:(11) 5539-5200
E-mail: olzon@terra.com.br

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